30 de julho de 2013

Os micróbios do parto natural previnem algumas doenças alérgicas

Cientistas constataram que as pessoas que nascem por cesariana têm maiores probabilidades de ser sensíveis ao pó e aos animais de estimação.

“Mamã, de onde vêm as alergias?”

Esta foi a pergunta que chamou a minha atenção, feita por um menino de uma mesa perto da minha. A sua mãe, obviamente uma perita em lidar com as curiosidades apresentadas por um menino pequeno, disse: “Das flores, ervas e dos alimentos como os amendoins”.
O menino continuou a comer, aparentemente satisfeito com a resposta. Mas eu não estava.

Os cientistas sabem o que ocasiona as alergias. Quando as partículas de pólen, os pelos dos animais domésticos ou certos tipos de alimentos entram no nosso organismo, chama-se-lhes antígenos. Segundo a Academia para as Alergias, Asma e Imunologia dos Estados Unidos, se o seu organismo for sensível a essa partícula, confunde-a com um invasor malino. A partícula torna-se então no que chamamos um alérgeno, (ainda que ser sensível á substancia não signifique que se desenvolva uma alergia).

Os alérgenos fazem com que o seu corpo produza imunoglobulina E (IgE), isto é, anticorpos. Os anticorpos E destroem os invasores perigosos. Desafortunadamente, os anticorpos também libertam histaminas e outras substâncias químicas que podem desencadear uma reacção alérgica.

Mas, o que faz com que uma pessoa seja sensível a estes antígenos aleatórios que pairam no ar, enquanto que outras pessoas levam a vida toda com os olhos secos e os seios nasais limpos?

Os cientistas não têm a certeza, mas têm algumas ideias.

A médica Christine Cole Johnson estudou as alergias desde os princípios da década de 1980. A sua equipa de investigadores do Hospital Henry Ford foi a primeira a demonstrar que ter um animal de estimação em casa durante o primeiro ano de vida do seu filho pode prevenir o desenvolvimento de alergias, descoberta que se confirmou também noutros estudos.

As suas investigações mais recentes indicam que o desenvolvimento das alergias começa antes disso.
Johnson analisou os dados de um grupo de mais de 1,200 de recém-nascidos em Michigan entre 2003 e 2007; os investigadores avaliaram-nos quando tinham um mês, seis meses, um ano e dois anos de idade.

Descobriram que os bebés nascidos por cesariana têm seis vezes mais probabilidades de serem sensíveis aos ácaros do pó que os bebés que nasceram de forma natural. A investigadora também encontrou resultados similares na exposição a alérgenos como os pelos de gato e de cão.

Os bebés que nasceram por cesariana têm um microbioma diferente no seu trato gastrointestinal, disse Johnson. Um microbioma é a palavra que os cientistas usam para descrever as colónias de bactérias que vivem nos humanos, seja na boca, na pele ou no sistema digestivo.

“É bastante surpreendente. Nos seres humanos, as células bacterianas superam em número as células humanas numa proporção de 10 para 1”, disse Johnson. “Essas bactérias são importantes, não poderíamos existir sem elas”.

No ventre materno, os bebés são estéreis, explicou Johnson. Quando passam pelo canal de parto, expõem-se á população de bactérias dos microbiomas vaginais e gastrointestinais da sua mãe. Através desta exposição, os seus próprios sistemas imunitários aprendem a diferenciar entre as bactérias boas e más, quais combater e quais usar.




Os bebés que nascem por cesariana têm bactérias intestinais que se assemelham mais ao microbioma cutâneo da sua mãe, disse Johnson. Tarde ou cedo as suas bactérias digestivas normalizam-se, mas esse atraso pode permitir que a exposição aos alérgenos se converta em sensibilidade.
Claro que essa é só uma possível causa das alergias, ou uma causa possível entre muitas outras.

O colega de Johnson, Haejin Kim, alergologista em Henry Ford, está a investigar o papel que joga a genética.
Num estudo mais recente de Kim descobriu-se que as crianças afroamericanas são três vezes mais sensíveis á comida que as crianças caucasianas. Também se determinou que uma criança afroamericana de um pai alérgico tem o dobro das probabilidades de ser sensível a um alérgeno ambiental que uma criança afroamericana cujos pais não sejam alérgicos.

Kim disse que os seus resultados não mudavam consoante o sexo ou a ordem de nascimento da criança.
“Isto indica que (as alergias) podiam ser genéticas”, disse Kim, algo que os cientistas sempre suspeitaram.

No entanto, não se trata de uma doença genética 100% herdada. “Não existe um gene para as alergias ou a asma. Provavelmente trata-se de uma combinação de vários genes que de alguma forma interactuam com o ambiente”.

Jonathan Silverberg, dermatólogo do Centro Médico St. Luke-Roosevelt em Nova York, analisou recentemente os dados de mais de 91,000 crianças para determinar se as crianças nascidas fora dos Estados Unidos teriam as mesmas probabilidades de desenvolver alergias que as crianças nascidas nos Estados Unidos.
Descobriu que as crianças nascidas fora dos EUA, mas residentes nos EUA, tinham a metade do risco de desenvolver alergias comparativamente com as crianças nascidas nos Estados Unidos. Este dado correspondia a todas as classes de alergias, incluindo as alimentícias, ainda que a asma tenha tido maior prevalência.

Silverberg e os seus colegas iniciaram o estudo logo que se deram conta que as crianças, suas pacientes, nascidas no estrangeiro desenvolviam alergias numa idade mais avançada. Descobriram que as crianças nascidas no estrangeiro que tinham vivido durante mais de 10 anos nos Estados Unidos apresentavam maior incidência de alergias que as crianças que só tinham estado um par de anos no país.

Os cientistas sabem que a exposição ambiental é um factor importante nas doenças alérgicas; não se pode desenvolver sensibilidade a algo ao qual nunca se foi exposto. No entanto, anteriormente os investigadores haviam-se concentrado nos alérgenos do ar como o pólen e não noutras exposições ambientais, disse Silverberg. Esses outros factores podiam estar relacionados com as infecções específicas referentes ao clima, á dieta ou á localização geográfica da criança.

“O que este estudo demonstra é que há algo ao que nos expomos nos Estados Unidos que não existe noutros países e, ao que parece, ocasiona que as pessoas desenvolvam ou manifestem uma doença alérgica”, disse.

Até agora não se sabe qual é o factor que joga o papel dominante, se é que existe.

Silverberg disse que é difícil tirar conclusões práticas desta classe de estudos. No entanto, com o tempo descobriremos de onde provêem as alergias, o que nos podia ajudar a descobrir uma forma de preveni-las ou ao menos de trata-las mais eficazmente.

Então, quem sofrer de alergias poderá cheirar as flores, rebolar na relva e comer amendoins como os demais.


Fonte - Por Jacque Wilson - CNN México
Traduzido por: divulga-se.info






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